quarta-feira, setembro 09, 2009

... mas na verdade é Aspirina
O dia muito lindo. Um desamparo. (...) Aquela cena na cabeça, como um filme.
O choro que náo dá pra conter. (...) Todos estão me cuidando. Tudo parece um sonho.
(...) Falei com minha mãe. Não sei que rumo tomar. Não sei se quero ficar ou voltar.
Meus lábios estão muito machucados e não consigo andar direito.

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São trechos que estão escritos, com a minha letra, numa agenda velha, amarelada de 10 anos atrás - do dia 10.09, pra ser bem exata, logo após o enterro, em Santa Maria.

Em 09/09/1999 nós voltávamos do Rio de Janeiro, de van. Em 09/09/1999 nós sofremos um acidente na via Dutra. Em 09/09/1999 nós perdemos a Flavinha.

Nós: eu e outras pessoas, queridas, lindas, inomináveis.

10 anos depois eu fico aqui besteando com uma agenda velha na mão, ouvindo Comfortably Numb no repeat só por ser um tiquinho masoquista, chorando de emoção, querendo abraçar aquelas pessoas que estavam comigo e tantas outras, pensando na Flávia, no Gabriel, em pessoas que se foram cedo demais. Inclusive no Renato Russo.

10 anos depois eu fico aqui pensando em acidentes que levam pessoas e que marcam, decisivamente, a vida de outras, que ficam.

10 anos depois eu acho a maior loucura, 10 anos depois, eu não conseguir sentar no banco atrás do motorista quando faço uma viagem de van pelo interior do brasil.

10 anos depois eu ainda lembro da força da Flavinha e imagino como ela estaria hoje - leve, linda, solar, guerreira, astuta, bem sucedida, apaixonada-desapaixonada, elétrica, facanabota, tanta tanta coisa mais.

10 anos depois eu gosto de corações, quem diria!, e fico aqui imaginando que coisas estapafúrdias - como corações - a Flavia iria gostar...

10 anos depois eu ainda penso no absurdo que é ela ter ido embora - ela, a primeira pessoa e dizer "vem pra porto alegre, tu não está só, a gente te ajuda", ela, que não passava na vida de ninguém sem provocar um maremoto, muito menos na minha.

10 anos depois eu acho uma injustiça a Valentina não poder conhecer essa tia leve, linda, solar, guerreira, astuta, inteligente, apaixonada-desapaixonada, elétrica, facanabota.

10 anos depois eu sinto saudades, sinto faltas. sinto que tem vazios que não são preenchidos porque preechimento não há.

Hoje, 09.09.2009, amanheceu estranho, triste e chuvoso, como naquele, nem tão distante assim, 09.09.1999.

viva!


...

Então chegou setembro, mesmo, e eu tô aqui, jogando papel fora e fazendo listas:

- lista das coisas que eu preciso fazer
- lista das coisas que eu sonho fazer
- listas das coisas que eu não fiz nem vou nem quero nem me permito fazer
- lista de supermercado
- lista das contas a pagar
- lista de desejos reais, irreais e surreais
- listas listas listas

Colo todas elas em uma parede grande, limpa e imaginária, enquanto vejo setembro passar rápido e chuvoso diante do meu nariz que, por um milagre homeopático, não escorre mais.

...

Os uruguaios usam, com muita maestria, um termo que gosto muito: tormentoso, que é aquele momento pré-"tormenta", tempestade, mas que também significa "una situación tensa y problemática". Eu tava pensando nisso, nessa palavra que eu gosto, que me remete a períodos cíclicos e em quando a gente está em estado de alerta. Sabe estado de alerta? Quando você acha, sente e espera que algo na sua vida vai mudar, assim, pluft, no momento seguinte?
Pois então.
Nada disso está acontecendo comigo agora.

(fóim fóim fóim)

...

"Ela chega todo dia
No interfone ou campainha
E tem cabelo vermelho
Também as unhas dos dedos
Ela mora no primeiro, fuma escondido no banheiro
Mas todo mundo sente o cheiro...
"

( eu gosto de corações, de morangos macerados com açúcar em copos largos cheios de gelo e saquê e dos Locomotores. eu acho que a Flavinha ia gostar deles também)

# . por Joelma Terto .  0 Comentários