sexta-feira, janeiro 13, 2006

Jacira's Town




O 77 que deu a idéia. "Vamos fazer um inventário da nossa geladeira?". Isso foi ali pelo ano novo. De lá pra cá só piorou. Ou melhor, melhorou: descobri essa semana um queijo podríssimo dentro de um tupperware, que já foi pro lixo. Saravá. Aí na gaveta ainda tem uma Pirassununga. Pras minhas caipirinhas. Salve salve.

Voltando à programação normal, faltam 14 dias para as férias. Enquanto isso, Porto Alegre ferve num calor arrebatador & apocalíptico. Pela primeira vez cogitamos, seriamente, comprar um ar condicionado. Declinamos em seguida. Não podemos desfalcar o fundo de viagem. Nunca, nunca, nunca foi tão prazeroso chegar mais cedo ao escritório e fazer um serãozinho até mais tarde. Meu reino por um ar refrigerado.

Coincidentemente, naquela quase insônia de noite de muito calor, relia as Pequenas Epifanias do Caio F. Enquanto lembrava tanto-o-tempo-todo do meu amigo querido Guiu, me deparo com um trecho matador sobre as dores e delícias de se viver na quenta-fria Porto Alegre. Just perfect:


Primeiro que não é uma cidade de verão. E muito menos de inverno. No verão as árvores parecem baixas demais, sobe um vapor mefítico do Guaíba e a gente se sente como dentro de uma panela de pressão. O verde fica viscoso, amazônico, as noites molhadas de suor pálido, os lençóis amanhecem encharcados de sais minerais mortos. No inverno, existem as frinchas. Por todo canto parecem existir frestas (a palavra é boa, mas "frincha" é muito mais dramático, concorda?) por onde se infiltram gélidos minuanos. E agosto, quando as paredes mofam e tudo vira uma cenografia das charnecas de Emily Brontë? Há lajotas insensatas pelas casas, não lareiras. No verão, tapetes absurdos e não tábuas no chão. No verão, Manaus; no inverno, Moscou. Pode, uma cidade assim? Pode, pois no outono e primavera ela se esmera e tons dourados, brisas tépidas, verdes suaves, céus-de-taça-de-porcelana invertida, como diria Erico Verissimo. É preciso saber amar Porto Alegre nesses entretons, nos outros dar o fora. O próprio Erico parecia saber muito bem disso, vivia dando o fora. E voltando, claro. Pois melhor do que morar aqui, é voltar para cá. Melhor ainda do que voltar para cá, é partir daqui e assim por diante, numa relação que não se resolve nunca.

(Caio Fernando Abreu in "A cidade dos entretons", crônica publicada na Zero Hora em 18/02/95, do livro Pequenas Epifanias, editora Sulina)


# . por Joelma Terto .  0 Comentários