segunda-feira, setembro 26, 2005

serviço de texto em casa

É hoje, em Floripa, o lançamento do livro do querido Fábio Brüggemann. "Isto não é notícia - escritos de jornal" também será lançado aqui em Porto Alegre, mas só no dia 29 de outubro, com sessão de autógrafos na Feira do Livro.

Nós gostaríamos muito de ir à Ilha de novo, ainda mais para prestigiar esse amigo e ainda mais porque, afinal, somos (eu&77, Rafa, Drica, Back) citados, pois inclui a sua invenção de Porto Alegre. Mas não vai dar...

Pra dar um gostinho do que é o texto do Fábio, taí embaixo o tal texto, lindo texto, já postado aqui em setembro do ano passado. Os grifos são meus e, como disse daquela vez, os amigos também.


FUNDAÇÃO DO PORTO ALEGRE
por Fábio Brüggemann

Volto ao sul e inauguro uma cidade. Passo por pilastras, lagoas que parecem mar, cabeças quietas de gado e planícies para chegar à beira de um rio. A ele dou o nome de Guaíba, acrescento-lhe um estuário, completo com navios e galpões, para depois batizar a cidade a sua volta com o nome Porto Alegre.

É uma cidade isolada, provinciana, um pouco decadente, mas, fazendo justiça ao nome, alegre. Às pessoas, atribuo-lhes a tarefa de vender bugigangas na rua da Praia (única onde não há praia, mas a imaginação é assim mesmo). Elas sentam nas calçadas e comem o pão, pedem uma moeda e vendem coisas. Seria este o único sentido da vida nas cidades: comprar e vender coisas? Caminho de doer as pernas, mas há outra função, a um arquiteto imaginário, que não seja a de pisar sobre seu próprio projeto?

Procurei velhos cachimbos, construí uma alfândega na praça homônima, admirei os prédios baixos da cidade baixa, respirei o ar barulhento da Redenção e me redimi, como faz sentido nestes lugares, quando o sol bateu-me à cara.

Ao contrário de deus - que criou, segundo a lenda, antes o homem - invento, primeiro, duas mulheres. Uma tem o nome de Adriana que, em minha língua, significa "aquela que está em todas as cidades". Desconfio, às vezes, que ela é quem me inventa. À outra, dei o nome de Rafa, a primeira a dar-me, com um abraço forte e um sorriso lindo, as chaves da cidade. Subimos o elevador (não há cidades sem eles) e, para não quebrar os rituais deste porto, sorvemos o amargo mate, muito distinto do suco saudável e doce que ela disse ter vendido um dia na Lagoa, onde sonho com ela imagens intraduzíveis.

A cidade tem outros habitantes. Há o Fedrizzi, cujo significado é: aquele que tem por hábito cair dos cavalos; o Sete-sete (ou Tzé, Tzé?) e a Jô, cujos beijos no seu homem me causam inveja. Há os que não tive tempo de nomeá-los, mas usam, quase como o homem de Drummond, óculos e barba e fazem pizzas com vontade de tocar um instrumento. Meus novos cidadãos têm fome e, para saciá-la, sirvo o risoto com os camarões de onde eu vim. De onde mesmo eu vim? Na rua, alguém grita meu nome e diz que venho de uma ilha sem porto. Com eles, a quem os chamo Marco e Loli, com estranhas manias de fazer filmes, contemplamos alegre o poente do rio Guaíba.

Porto Alegre, tão isolada em sua toponímia, precisa de poetas. Dei a um o nome Mário Quintana, que me diz: "Sinto uma dor infinita/ Das ruas de Porto Alegre/ Onde jamais passarei", transformando-se, a seguir, em estátua. Os outros, Ronald Augusto e Pedro Port, recitam versos, debatem coisas impalpáveis e inúteis como a poesia. Ronald (a quem já devo ter inventado em outros lugares) relembra Funes, o borgeano personagem de memória para tudo. Cabia tanto em sua cabeça, que o peso da história o empurrava ao leito. Se nós nos lembramos de qualquer árvore quando ouvimos a palavra árvore, Funes lembrava todas as árvores do mundo, uma a uma, com mínimos nós e seivas.

Se o indivíduo não pode suportar toda a sua trajetória na memória, para que não precise outra vida apenas para contá-la, sobra a ele, como tarefa, guardar um pedaço suportável da história, para depois reparti-lo coletivamente, compondo um mosaico chamado cidadania. O fulano lembrará da batalha dos charrúas, o sicrano do dia em que o primeiro automóvel subiu a recém inaugurada Borges de Medeiros e seus belos arcos, porém sombrios; o beltrano terá como sina contar quantos carecas havia no teatro São Pedro. A vida contada assim talvez seja mais compreensível e menos fragmentada. O conjunto destas memórias torna leve os acúmulos privados - porém seletivos - da memória e evitam o contrangimento deste péssimo hábito das cidades desmemoriadas, que é o de esquecer a todo instante a forma de uma roda.

Naquele porto, para combater a melancolia dos seres que habitam as planícies, o mate é o elo da alegria. A cuia não divide apenas o líquido amargo, mas o naco de história de cada cidadão que o sorve. Na volta, dou carona a um padre de nome Paulo. Ele não suporta os grandes congressos, as reuniões acadêmicas e as falas equivocadas. Porém, não sabe que, de alguma forma, me alegra como a um porto, porque resignifica a palavra amizade nestes tempos sombrios e não muito
alegres.


# . por Joelma Terto .  0 Comentários