terça-feira, setembro 07, 2004

um lindo texto do
NOSSO AMIGO FÁBIO
(leia até o fim)


FUNDAÇÃO DO PORTO ALEGRE
por Fábio Bruggemann

Volto ao sul e inauguro uma cidade. Passo por pilastras, lagoas que parecem mar, cabeças quietas de gado e planícies para chegar à beira de um rio. A ele dou o nome de Guaíba, acrescento-lhe um estuário, completo com navios e galpões, para depois batizar a cidade a sua volta com o nome Porto Alegre.

É uma cidade isolada, provinciana, um pouco decadente, mas, fazendo justiça ao nome, alegre. Às pessoas, atribuo-lhes a tarefa de vender bugigangas na rua da Praia (única onde não há praia, mas a imaginação é assim mesmo). Elas sentam nas calçadas e comem o pão, pedem uma moeda e vendem coisas. Seria este o único sentido da vida nas cidades: comprar e vender coisas? Caminho de doer as pernas, mas há outra função, a um arquiteto imaginário, que não seja a de pisar sobre seu próprio projeto?

Procurei velhos cachimbos, construí uma alfândega na praça homônima, admirei os prédios baixos da cidade baixa, respirei o ar barulhento da Redenção e me redimi, como faz sentido nestes lugares, quando o sol bateu-me à cara.

Ao contrário de deus - que criou, segundo a lenda, antes o homem - invento, primeiro, duas mulheres. Uma tem o nome de Adriana que, em minha língua, significa "aquela que está em todas as cidades". Desconfio, às vezes, que ela é quem me inventa. À outra, dei o nome de Rafa, a primeira a dar-me, com um abraço forte e um sorriso lindo, as chaves da cidade. Subimos o elevador (não há cidades sem eles) e, para não quebrar os rituais deste porto, sorvemos o amargo mate, muito distinto do suco saudável e doce que ela disse ter vendido um dia na Lagoa, onde sonho com ela imagens intraduzíveis.

A cidade tem outros habitantes. Há o Fedrizzi, cujo significado é: aquele que tem por hábito cair dos cavalos; o Sete-sete (ou Tzé, Tzé?) e a Jô, cujos beijos no seu homem me causam inveja. Há os que não tive tempo de nomeá-los, mas usam, quase como o homem de Drummond, óculos e barba e fazem pizzas com vontade de tocar um instrumento. Meus novos cidadãos têm fome e, para saciá-la, sirvo o risoto com os camarões de onde eu vim. De onde mesmo eu vim? Na rua, alguém grita meu nome e diz que venho de uma ilha sem porto. Com eles, a quem os chamo Marco e Loli, com estranhas manias de fazer filmes, contemplamos alegre o poente do rio Guaíba.

Porto Alegre, tão isolada em sua toponímia, precisa de poetas. Dei a um o nome Mário Quintana, que me diz: "Sinto uma dor infinita/ Das ruas de Porto Alegre/ Onde jamais passarei", transformando-se, a seguir, em estátua. Os outros, Ronald Augusto e Pedro Port, recitam versos, debatem coisas impalpáveis e inúteis como a poesia. Ronald (a quem já devo ter inventado em outros lugares) relembra Funes, o borgeano personagem de memória para tudo. Cabia tanto em sua cabeça, que o peso da história o empurrava ao leito. Se nós nos lembramos de qualquer árvore quando ouvimos a palavra árvore, Funes lembrava todas as árvores do mundo, uma a uma, com mínimos nós e seivas.

Se o indivíduo não pode suportar toda a sua trajetória na memória, para que não precise outra vida apenas para contá-la, sobra a ele, como tarefa, guardar um pedaço suportável da história, para depois reparti-lo coletivamente, compondo um mosaico chamado cidadania. O fulano lembrará da batalha dos charrúas, o sicrano do dia em que o primeiro automóvel subiu a recém inaugurada Borges de Medeiros e seus belos arcos, porém sombrios; o beltrano terá como sina contar quantos carecas havia no teatro São Pedro. A vida contada assim talvez seja mais compreensível e menos fragmentada. O conjunto destas memórias torna leve os acúmulos privados - porém seletivos - da memória e evitam o contrangimento deste péssimo hábito das cidades desmemoriadas, que é o de esquecer a todo instante a forma de uma roda.

Naquele porto, para combater a melancolia dos seres que habitam as planícies, o mate é o elo da alegria. A cuia não divide apenas o líquido amargo, mas o naco de história de cada cidadão que o sorve. Na volta, dou carona a um padre de nome Paulo. Ele não suporta os grandes congressos, as reuniões acadêmicas e as falas equivocadas. Porém, não sabe que, de alguma forma, me alegra como a um porto, porque resignifica a palavra amizade nestes tempos sombrios e não muito
alegres.

...
:~
(os grifos são meus. os amigos citados também)

# . por Joelma Terto .  0 Comentários