sexta-feira, outubro 03, 2003

CAIO

Eu queria falar do CAIO. Porque alguém me fez lembrar dele hoje. Mas eu não vou falar agora. Não vou falar ainda. Vou dar um copy&paste e tudo será compreensível.
 
Sem data
       Claro, o dia de amanhã cuidará do dia de manhã e tudo chegará no tempo exato. Mas e o dia de hoje?
       Só quero ir junto com as coisas, ir sendo junto com elas, ao mesmo tempo, até um lugar que não sei onde fica, e que você até pode chamar de morte, mas eu chamo apenas de porto.
2 de Março
       Chorar por tudo que se perdeu, por tudo que apenas ameaçou e não chegou a ser, pelo que perdi de mim, pelo ontem morto, pelo hoje sujo, pelo amanhã que não existe, pelo muito que amei e não me amaram, pelo que tentei ser correto e não foram comigo. Meu coração sangra com uma dor que não consigo comunicar a ninguém, recuso todos os toques e ignoro todas tentativas de aproximação. Tenho vergonha de gritar que esta dor é só minha, de pedir que me deixem em paz e só com ela, como um cão com seu osso.
       A única magia que existe é estarmos vivos e não entendermos nada disso. A única magia que existe é a nossa incompreensão.


Caio Fernando Abreu
Parte de um conto chamado "Lixo e Purpurina", escrito em 1974, quando o autor se encontrava em Londres. Do livro Ovelhas Negras (1962-1995).

# . por Joelma Terto .  0 Comentários