quarta-feira, outubro 29, 2003

as mil e uma noites

“Sou a rainha do Egito
Sou a filha do faraó
Sou como dessas meninas que namora a lua
E o sol”*

Dez caixas enfileiradas. Metade delas preenchidas. E não tem nem 5% da casa. Queria me livrar de, pelo menos, ¼ de tudo isso. Doar os livros que jamais serão relidos. Rasgar quase todos os papéis. Esvaziar as pastas. Coisas não úteis, mas com sua importância. Digo pra mim mesma que não há apego material nisso. E por outro lado, algum apego sentimental em muito.

“Eu não ando
Eu só sambo
Por aí
Esse samba mambo
Escorregando para não cair...”*

Aí passa pela cabeça aquele pensamento clichê do tipo “como juntamos tralha nessa vida”. Aí eu lembro de 1999. Quando vim pra Porto Alegre e minha vida toda cabia em uma mala, uma mochila e uma caixa, com alguns livros, cds e os papéis.

“em setembro já nem sei o que pretendo
em dezembro, já nem me lembro...”*

Agora tudo isso. que é tão pouco, na verdade, mas já é um tanto assim. Um monte de madeira e ferros e aparelhos e pinos e parafusos. E fios e mais papéis. Que não cabem mais em uma mala, uma mochila e uma caixa velha. Que fazem parte de ti e contam um bocado da tua história. Que têm a tua cara. Ou simplesmente não. Por vezes parece fazer algum sentido, mas se tu olhar bem, se tu parar, se tu pensar um pouquinho, tu vai ver que não tem razão nenhuma de ser. De estar ali. De ter alguma utilidade na tua vida, fora a prática.

“por que uma pessoa jóia mesmo é coisa rara
como alguém que tem um diamante costurado no umbigo”*

De repente, tu te sente criando mesmo raízes. Mas prefere não se preocupar e até achar graça. E até gostar. E toca o barco.

*auxílio mais que luxuoso do Jorge Mautner e as suas mil e uma noites de Bagdá.

# . por Joelma Terto .  0 Comentários