quarta-feira, maio 14, 2003

O Jogo da Amarelinha - Capítulo 7
Júlio Cortazar (Tradução de Fernando de Castro Ferro)

Toco a sua boca, com um dedo toco o contorno da sua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se pela primeira vez a sua boca se entreabrisse, e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que a minha mão escolheu e desenha no seu rosto, e que por um acaso que não procuro compreender coincide exatamente com a sua boca, que sorri debaixo daquela que a minha mão desenha em você.

Você me olha, de perto me olha, cada vez mais de perto, e então brincamos de cíclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam uns dos outros, sobrepõem-se, e os cíclopes se olham, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio. Então, as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo, enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água.

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Quem me conhece sabe. Porque eu digo a todo mundo. Que O Jogo da Amarelinha, do Cortázar, é O Livro da Minha Vida. Assim, em maiúsculas.

E se vocês pensam que eu vou aqui falar de literatura, se enganaram. Já disse que não sei fazer isso direito. Que essa coisa de emitir opiniões baseadas na razão nunca foi meu forte.

Eu só sei que aquele calhamaço de cents (640) páginas caiu um dia nas minhas mãos e que eu quase pirei a cada linha, a cada página, a cada capítulo que, tal jogo da amarelinha, você vai pulando de um para outro. Do 4 para o 9, do 9 para o 15, do 15 para o 3 e por aí vai.

Que cada linha, cada página, cada capítulo sorvido me tirava o fôlego. Me emocionava, me fazia me identificar, de alguma forma. Aquela Paris. A Maga (encontraria a Maga?!?). Tudo. Tudo. A Argentina, mais ao final. A ponte. O hospício. As Morellianas.

O capítulo 7 entra aqui quase por acaso. Porque foi a única coisa que achei na rede, já que não tenho o livro. Mas o por acaso nem sempre é por acaso, já que o capítulo em questão é tão belo e tem tão tanto a ver. Com tanto. Com tudo.

Contudo, quem lê apenas isso aí não pode ter nem idéia da medida da obra. Não pode nem imaginar que surpresas o livro revela. A linguagem, o oscilar de estilos - positivo oscilar, porque forma um todo tão heterogêneo, mas tão perfeito.

Quem não leu, eu só posso sugerir, indicar. Leiam. Pode não marcar tanto a tua vida, como marcou (mudou? mudou) a minha, mas, com certeza, vai marcar. Diz minha intuição. E ela não costuma falhar.

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Sugestão de presente para o dia 1° de dezembro: O Jogo da Amarelinha (Rayuela) - Ed. Civilização Brasileira


# . por Joelma Terto .  0 Comentários