quinta-feira, maio 01, 2003

Dear Clarice

Putz. Remexendo na minha conta antiga de e-mail, achei isso aí. Um e-mail enviado pra um amigo, em 99, com uns trechos de A Hora da Estrela, livro da Clarice Lispector. E, esses dias eu tava lembrando justamente da Macabéa, personagem do livro. Perfeitinho.

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"Já que sou, o jeito é ser."

"É que ela sentia falta de encontrar-se consigo mesma e sofrer um pouco é um encontro. (...) que há de fazer com a verdade de que todo mundo é um pouco triste e um pouco só?"

" - Você, Macabéa, é um cabelo na sopa. Não dá vontade de comer. Me desculpe se eu lhe ofendi, mas sou sincero. Você está ofendida?"

"Macabéa pedir perdão? Porque sempre se pede. Por quê? Resposta: é assim porque assim é. Sempre foi? Sempre será. E se não foi? Mas eu estou dizendo que é. Pois."

"As pancadas ela esquecia, pois esperando-se um pouco a dor termina por passar. Mas o que doía mais era ser privada da sobremesa de todos os dias: goiabada com queijo, a única paixão na sua vida. Pois não era que esse castigo se tornara o predileto da tia sabida? A menina não perguntava por que era sempre castigada mas nem tudo se precisa saber e não saber fazia parte importante da sua vida"

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Quando a gente começa a ler C.L. não pára mais. Pelo menos comigo foi assim. Saí devorando tudo dela que encontrava pela frente. E via beleza em tudo. Beleza e dor. Tem um livro, "A mulher que matou os peixes". É p/ crianças, e ela conta, numa linguagem "infantil", que deixou 2 peixinhos morrer de fome num aquário. Ela pede que eles a perdoem enquanto narra outras passagens da vida dela e dos filhos relacionadas a bichos. Não gosto de bicho, mas o livro é lindo. "A hora da estrela", nem precisa dizer nada. Li inteiro numa tarde chuvosa de acampamento frustrado, em Alagoas, c/ a minha galera. Entrou água na barraca, o sol não apareceu, quebrou a corda do violão...Pra curar a ressaca do dia anterior, só ela mesmo.

É isso aí.
Beijos.
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(O grifo, lá em cima, no segundo trecho, é meu. Quando as pessoas reclamam das minhas tristezas e solidões – e algumas pessoas reclamam que eu reclamo demais – eu sempre lembro dessa frase. A maioria das vezes nem falo, porque quem reclama, provavelmente não entenderia. Vontade de reler, tanto esse livro quanto “A mulher que matou os peixes”, mas quando acabar umas leituras pendentes vou reler, pelo menos, o Água Viva, que tenho aqui e que eu considero a “maior egotrip” dela. Catársico.)


# . por Joelma Terto .  0 Comentários