terça-feira, março 11, 2003

[44] A VIDA DAS MULHERES CHUVOSAS

Cada vez que olho para o lado e vejo a frente de meu rosto penso perdido em como você poderia estar aqui comigo e não está mais não está mais está aonde eu poderia estar mas eu não consigo porque sou humano e covarde e sei que você sentiria a mesma coisa se ainda estivesse todos os dias vendo meus olhos no espelho do lado de fora da minha casa e então saiba que por mais pedante que possa parecer e por mais verdadeiro que seja a morte da poesia em meus dedos retráteis ainda sinto um pesar nas pernas e caminho sem direção solitário pelas ruas tentando te achar em algum fundo perdido de um copo de cerveja e feliz absorvo o sol em minhas pálpebras cansadas e sedentas de um carinho um beijo e um olhar sincero de tristeza parecido com aquilo que eu cinicamente possa acreditar nessa insensível coletânea de palavras alegra a mentira da minha vida e eu continuo exercitando minha veia de ator a felicidade não existe tu me dizia com olhos de álcool e eu acredito nisso então trabalho diariamente nos caminhos das calçadas e da tristeza do asfalto suicídio incandescente e o inferno não é tão triste quanto parece porque aqui sou livre e tu podes ter certeza de algo que nunca esquecerei eu preciso abraçar alguém com sentimentos e que respira o mesmo ar que eu e ande nas mesmas ruas que eu olhando os mesmos olhos que eu e o inferno parece ser um bom lugar porque abraçar o inferno é tão confortante quanto beijar na madrugada maria no berço e primavera da vida insone mas estou propenso até a voltar ao inverno onde coloco colchões nas paredes do meu quarto e tento não me ferir enquanto te procuro com meus punhos sangrando e minha cabeça bordoada de amor pegando os dedos soltos da tua mão suicídio suicida da carne cozida das crianças de dias de verão africano e então tu me encontra numa noite clara e me diz amor vou chover em ti e eu berro para que todos os invejosos do inferno ao lado tenham raiva e inveja ao saber que sou o único a admitir que amo mulheres chuvosas e que não é proibido ser feliz mas nada me impede de também gostar do inferno maria que me abraça e me entorpece dias e dias pelas ruas transversais das avenidas alheias a vida para muitos é uma avenida cheia de lojas de sapatos e luminosos vermelhos de jesus e nossa vida é uma rua sem saída com nuvens carregadas de ódio calçadas amarelas de amor e o ar folha verde de cachorros dormindo e talvez seja isso mesmo nosso amor perdido em uma chuva de lua nova é como um cachorro dormindo na sombra de janeiro os cachorros sonham eu sei disso apesar de saber que os poetas também já morreram pelo movimento do pedaço do rabo cortado e seu focinho molhado de inferno outono cínico de asfalto e eu convoco kafka e rimbaud para almoçarem comigo enquanto te esperamos no berço de maria pois não é a televisão nem as sobrancelhas do apresentador que mudarão as notícias somos nós que só escutamos o que nos interessa e vamos empurrar carrinhos de madeira na praça e então sim choramos mulheres de jesus ao pé da cruz e sorrimos no único momento feliz de nossas vidas em saber como é bom amar no inferno como é bom se perder na rua transversal da tua vida e hoje foi palavras água e flores decadentes e passos largos largos largos almoçando teus olhos no escuro triste do meu caixão meu túmulo de amor cavado nas pedras sedentas do deserto que é o coração triste de jesus maria do túmulo onde está inscrito o nome de todas as pessoas que nasceram e onde um dia também estará o meu no inferno dos créditos finais dos olhos de maria chorando e eu dormirei como o cachorro que ama mulheres chuvosas.

Do livro VIDAS CEGAS, de Marcelo Bevenutti. Editora Livros do Mal. 2002

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Não me canso de recomendar esse livro. Leia, Crianças, leiam.

São pequenos contos, pequenas fábulas, 69 histórias sobre vidas. De pessoas, de coisas. Vidas cegas, como diz o título.

Me faltam exatamente 15 contos para acabar a leitura, mas já posso dizer que o que me chama a atenção é que, apsear de, aparentemente, seguir uma lógica (até mesmo pelos títulos “A vida de Júlio”, “A vida de Ulisses”, “A vida de Bárbara”, “A vida da Nuvem Inglesa”, “A vida do Bar”, “A vida dos Amarelos Piscantes”), o livro não segue uma temática. É heterogênio. O Bevenutti é, sem dúvidas, dos mais talentosos dessa geração de “novos escritores”. Tem embasamento, já leu muito e escreve muito bem. Estilo. Tem o dom de criar histórias simples, mas que te tocam. Histórias intensas. Isso.

“Por fim, imaginem que não precisaríamos de nada. E assim nasceu esse livro. Podem imaginar uma sala vazia? Então imaginem que somente vocês sabem que esta sala está vazia. As outras pessoas, que estão na sala que vocês sabem estar vazia, não sabem disso. Vocês têm que avisa-las. Berrem. Gritem. Saiam daqui, pois esta sala está vazia! Mas muitas delas não lhes ouvirão. Elas continuarão preenchendo a sala vazia. Estas são as pessoas de VIDAS CEGAS” (o autor, na orelha do livro)


# . por Joelma Terto .  0 Comentários