quarta-feira, fevereiro 26, 2003

Pra entender basta uma noite de insônia. Um sonho que não tem fim. Um dia sem muita graça. Uma praça sem muito sol. Pra entender, nada disso é tudo e tudo isso é fundamental (HG)

Um texto ENORME e velho, resgatado do fundo da gaveta. Sobre os fantasmas que me atormentavam no apartamento número 3 do prédio 333. Em tempos idos. Não faz muito. Exatamente em:

(24 de fevereiro de 2000)

Ócio. Poderia justifica-lo: produtivo. O que dizer de tardes assim, nem tão quentes, de verão? Até brisa há, bem como o sol. Pessoas na rua até. E daqui pro parque verde e grande, poucos metros. No entanto, enquanto não se dorme, na vã tentativa de recuperar o sono perdido da noite anterior, mil conjecturas. E a noite anterior propícia foi à elaboração de conjecturas e devaneios. Noite de comer e se espalhar com quem se gosta. Dedos suados que te tocam, de leve, com medo. Acho que era medo, sei lá, vai entender as pessoas! Eu é que não me arrisco mais.

Noite de falar sobre monstros e fantasmas e chegar em casa às 4 da manhã, mesmo sabendo que o despertador, com seus dois ponteiros, pequeno e grande, estrategicamente posicionados nos números 5 e 6, respectivamente, não te darão nenhuma chance.

Falar neles, chegar e constatar que a luz queimada do disjuntor, pra nossa surpresa, causa medo-pânico-filha-da-puta, dos mortos e dos vivos, se vivos há. Gritar de medo e de dor por queimar as pontas dos dedos com o isqueiro azul. E xingar alto, às 4 da manhã, o pau-no-cu do síndico, pela culpa de deixar meninas gritando de medo-pânico. E dormir.

E sonhar que ele vem, mas quem me visita é Ele. O meu fantasma.

A casa está cheia deles. Uma velha que morreu há anos-luz, que vivia trancada e que só sabia abrir e fechar portas, e que não se toca que não é um saco essa mania de “viver” abrindo e fechando portas. Um garoto chato que teima em esconder meus papéis e blocos de anotação. Outro que vive na poltrona da sala e que não faz absolutamente nada além de me olhar e me assustar com sua presença esquálida.

Outros ainda há, mas todos fichinha perto d’Ele. E Ele acha de vir justo hoje que preciso dormir! Chega no ponto limite entre o dormido e o acordado. Estado de vigília, acho eu. É apavorante. Juro que é. Sei quando é Ele: primeiro o arrepio-calafrio; depois seu olhar em cima de mim, embora não possa vê-lo por medo de olhar e ser feio ou bonito demais; depois a voz que, de tão grave e assustadora, não vou nem comentar. Sinto, me arrepio. Quero gritar, me mexer, mas ele não permite.

Deu pra me visitar com certa freqüência. Embora esteja sempre lá, só me aparece à noite ou em madrugadas como essa, em que preciso mesmo de bons sonos e sonhos.

Agora esse medo de dormir no escuro. E essas olheiras que me enfeiam a cara. Cultivo-as com especial atenção e o culpo pela existência delas. A velha mania de jogar a culpa nos outros e agora até os fantasmas são minhas vítimas nessa mania de ser sempre vítima. “Eu sei que tô quebrada, mas foste tu quem me quebraste. Não sou cruel o suficiente pra fazer isso comigo ”. Rá! Finge que acredita nas mentiras que inventa pra evitar expiar suas culpas.

Mas falava sobre o ócio da tarde de verão depois de uma noite de comer, falar, sentir dedos na pele, chegar às 4h, ter medo e morrer de pavor por ver fantasma.

Justifico: produtivo, na medida em que dormir edifica o corpo, a música edifica a alma, e ler edifica o intelecto. Um cigarro cai bem, embora em nada edifique meu pulmão. Mas produzir não é ficar entre quatro paredes escrevendo numa agenda obsoleta enquanto se ouve o barulho dos carros lá embaixo e se percebe que o sol logo já vai embora, e fuma feito uma caipora anã. Produzir é deixar-se viver. Mas não sei se quero um ou outro. Não sei se devaneios levam a algum lugar. Só sei que o parque verde e grande é logo ali.

Será que hoje Ele vem?

E o que falar sobre a distinção entre o medo-pânico e o medo-adrenalina? Paro por aqui.

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Quando eles começaram a aparecer eu pensei que estivesse ficando louca. De dar dó, a pobrezinha. De dia fala sozinha, de noite vê fantasmas. Pras pessoas “normais” falar sozinha e ver fantasmas é coisa de doido de hospício. Pras que se entorpecem, é apenas viagem. Pois bem, nem um nem outro. Ou os dois. Mas só eu sei o quanto é real. Eu sinto.

A primeira vez que vi, ainda não era Ele, era Ela, minha amiga que foi embora. Ela era luz-forte-amarela-ofuscante. E apesar de luz-luz, meteu medo feito trevas-escuridão. Ela não estava só e me assustei um tantão. A luz me amarrou braços e pernas, tapou minha boca e abriu meus ouvidos. Os olhos que viam, não viam, mas viam. E aquilo era um sinal, bem sei. Um sinal de que Ela estava insatisfeita comigo. Não gostaria mais de mim? Eu não teria sido uma boa amiga? Eu era a meninha daquele filme... aquela, que ajuda a amarrar o cadarço da irmã, o que a fez morrer no carro...

Era eu, inocente e culpada. E Ela agora ali, uma luz que tentava puxar meu pé e tirar as cobertas. O coração tum-tum-tum e ainda ficar o dia inteiro sozinha, vendo coisas e ouvindo vozes. Passou.

Ela não veio mais, mas mandou um amigo. Ele era bonito e bom, mas me pegou desprevenida. E quando senti que estava ali, quase fiz xixi na cama, apesar de não ter mais idade de fazer essas coisas. Eu havia “saído” de mim, dei uma volta pela cidade baixa. Daí quando “voltei”, senti que ele tinha entrado em casa também e estava no meu quarto, em pé, ao lado da minha cama, olhando pra mim. Não falava nada, era jovem, belo e eu só o via através de um olho que não existia. Pensei “tô fudida”. E quando resolvi encara-lo, pluft!, cadê? Foi medo demais naquela noite.

E só hoje vejo o quão injusta fui, por quão belo era, devia mesmo ser bom. Por só me olhar, me velar e nada dizer, acho que me queria bem.

Nunca mais apareceu. E sinto falta desse moço belo e bom desde que Ele, o terceiro, o outro, o atual, apareceu.

Ele, o atual, é terrivelmente apavorante. Sei que é feio, embora nunca tenha tido coragem de olha-lo com os olhos que vêem,...

[Nenhum preconceito contra os feios, juro. Aliás, em matéria de estética, sempre preferi o “feio” ao “belo”, além do que, beleza e feiúra são só conceitos, mas fazem sentido quando se trata de assuntos sobrenaturais.]

... E fala! Por deus que fala! Mas não consigo entender um só de seus grunhidos, graças a Jah! Ou teria uma síncope pra nunca mais voltar. Não sei o que Ele quer. Não é luz, não quer só me velar e muito menos tá de zombeteirice. Só sei que quando chega, me arrepio inteira e isso já é o suficiente pra saber/sentir que Ele está em alguma parte do quarto, a me olhar com um risinho na cara.

Aí começa a falar algo inteligível, numa voz de Darth Vader na mais lenta rotação. Sério. Eu, encolhida debaixo do lençol, apesar do calor infernal do verão portoalegrense, até ele cumprir a sua missão de me assustar e ir embora, pra voltar outro dia. Apavorante e freqüente.

Não sei quem é, nem de onde veio, mas morro de pavor cada vez que ele aparece.

Aí uma amiga falou: da próxima vez, começa a rezar.

À noite, ao sentir o primeiro arrepio, comecei a tremer. Ao primeiro ou segundo grunhido, lembrei do conselho e comecei: “ave Maria cheia de graça”. E o resto? Quem disse que eu lembrava? Tentei: “pai nosso que estás no céu”, que também há muito me confundo toda. Mas aquilo, mesmo dito assim, toscamente, acalmava. E continuei minha oração: um mix de pai nosso com ave maria, com pedaços de letras do Legião.

A essas alturas, Ele devia estar se mijando com a minha oração de crente pateta, o palhaço, e foi-se embora. Eu continuava no pai-nosso-ave-maria, porque não queria que ele voltasse.

Ele, que me fez ter medo do escuro e de ficar sozinha em casa. Logo eu, que nunca tive medo de barata! Logo eu, que sempre adorei ficar só em casa, aquela liberdade toda de ligar o som bem alto, sem pai nem mão pra azucrinar. Logo eu, que sempre quis me livrar de pai e mãe e quando consigo, me pego chamando por eles (“pai-nosso-ave-maria”) pra me ajudar a me livrar de um fantasma que sei lá se existe mesmo (existe!). Como quando criança e tinha crise de asma e eles viam, nós três na minha cama estreita, até dormir. “Pai e mãe, vêm aqui me ajudar, que estou sozinha e tenho medo”.

Pai e mãe, Ele não me deixa dormir, e por isso essas olheiras. Pai e mãe, eu preciso de colo de pai e mãe. Ou de um exorcista. Pai e mãe, eu preciso de grana, que minha conta tá no vermelho.

Isso foi da última vez. Tô esperando Ele voltar, agora que já decorei todo o Pai Nosso, a Ave Maria e ainda o Credo e a Salve Rainha, que minha vó me mandou por fax (SÈRIO!). Quero só ver! Se não der certo, juro que chamo o Padre Quevedo.

...

Se tu leu tudo, até aqui, eu só gostaria de dizer mais uma coisinha: isso é uma história REAL. Tudo isso ACONTECEU. De VERDADE. EXATAMENTE como relatado.

# . por Joelma Terto .  0 Comentários