sexta-feira, fevereiro 21, 2003

Da série Porque Copyleft é Tudo

Identificação é um troço incrível. Eu conheço o Lamenha há horas. Ele foi meu professor na Ufal. Aliás, um dos melhores professores que passaram pelo COS nos últimos tempos (ali, empatadinho com o Cláudio Manoel). E creio eu que foi o grande responsável por termos (eu+DD+Paulíssima) tirado 10 com louvor e mérito no TCC. Nunca vi uma banca tão emocionada com um trabalho de conclusão. Foi lindo. Quase choramos com a emoção dele, nos defendendo.

Enfim. A criaturinha querida está em Sampa agora e tem um blog. E eu vou lendo e vou me surpreendendo e vou me identificando. Será o fogo? O fogo que nos une, a nós, sagitarianos? É bem provável.

Daí que outro dia li uns escritos de um ano atrás, mas postado recentemente. Eu li. E reli. E pensava “mas puxa”. Puxa... Se eu fosse tão talentosa, como ele, eu diria que aquilo era uma coisa que eu teria escrito. Daquele jeitinho.

Por isso não resisti. Por isso aquilo vai entrar aqui. E passar a ser isso:

Aqui e Lá (ou Quando te Vi)
(por Guilherme Lamenha)

- Você é daqui?
- Não. Sou de lá.
- Eu pensei que você fosse daqui, desculpe.
- Você não tem que se desculpar.
- Não?
- Claro, que não!
- É que me disseram.
- Disseram o quê?
- Que, sendo barata, eu tinha sempre que pedir desculpas. Que podem achar estranho. Sei lá.
- Estranho? Ninguém vai achar estranho. Todo mundo aqui é igual a você.
- É que eu nunca soube muito bem a medida do certo e do errado. É isso.
- Eu quero te dizer uma coisa. É sobre o que eu senti a primeira vez que vi você perto da pia.
- Tá bom. Antes, deixa eu dizer que tive medo! Medo de morrer quando eles notaram que a gente estava lá. Medo do chinelo daquela mulher que vive dizendo que tem medo de barata.
- Mas eu estava lembrando a primeira vez. Eu olhei e vi que você era igual a mim. Depois eu disse: mas ele ainda não mudou a casca, nem uma vez. A cor também lembrava muito a minha. A dos primeiros dias, quando eu ainda achava que era possível encontrar um lugar para nós. É que sempre nos fizeram acreditar nessa coisa de terra prometida, espaços abertos, longe de chinelos, venenos e tudo mais que inventam para exterminar a gente. Eu já estava quase desistindo quando vi você!
- Você se apaixonou por mim!?
- Não. Eu me vi em você! Não era paixão. Era mais real. Mais honesto. Eu sabia que ia durar a vida inteira.
- Você nunca teve medo dos humanos?
- Humanos?
- É, dos humanos!
- Não. Eu sempre tive uma segurança fora do comum no destino. As coisas que têm que acontecer, acontecem. Uma barata não é só uma barata. É um somatório de coisas antigas, de tempos remotos. É memória.
- Isso eu também sinto. Igual.
- Você já percebeu que as cores que enxergamos são diferentes? Que, do nosso ponto de vista, tudo se encaixa, tudo tem um sentido... diferente?
- É. Tem razão. Nunca tinha pensado nisso!
- É que você e eu e nós somos maiores. Estamos no mundo inteiro. Aqui e acolá. Estamos como presença incômoda, mas aprendemos a conviver com isso.
- Você sempre soube disso tudo?
- Não. Mas um dia, eu estava num quarto, perto de umas caixas e alguém apareceu. Acho que ela estava tentando encontrar algo quando me achou.
- E?
- E acabou me desnudando. Logo eu, uma barata. Ela me olhou por dentro e entre. Foi a primeira vez que alguém me viu desse jeito. Ou, simplesmente, foi a primeira vez que alguém me viu.
- E?
- E eu passei a ter um lugar no mundo. Passei a ser.
- Você não era?
- Acho que nunca fui. Mas a partir daquele momento senti que alguma coisa estava acontecendo. Era como se eu tivesse conquistado o sentimento do mundo. É isso. É como se finalmente as coisas fizessem sentido pra mim. E eu lembro como se fosse hoje. Era uma manhã, quase tarde. Entre meio dia e duas horas. Estava tudo morno e de repente senti aquela luz. Ela também estremeceu e ficou parada. Ambos parados no tempo. No tempo redescoberto.
- Será que isso também vai acontecer comigo?
- Vai. Na verdade, já está acontecendo. Basta olhar com calma para o que está do seu lado.
- Do meu lado?
- É. Do seu lado e dentro de você existe uma coisa que pode mudar o mundo.
- E o que é?
- Isso quem vai ter que descobrir é você. Mas uma coisa eu te garanto: você já está mudando de cor e eu nunca, NUNCA, tinha visto antes uma cor tão linda!


.....
O grifo é meu. Porque sim, oras.

(lindo, GUIU. lindo tudo que tenho lido. eu acho que vou escrever pra Clarice pra dizer tudo isso a ela. pra falar da descoberta, minha descoberta. e pra dizer a ela o quão lindo tu és. mas acho que ela já sabe disso. sim, ela já sabe... eu tô aqui, longe, mas pertinho de ti, torcendo e rezando, sim, reaprendendo a rezar... tudo vai ficar bem. teu sorriso gostoso, teu senso de humor, tua leveza... saudades.)

......
“(...) porque a sina é: sobreviver e se der para ser feliz, melhor ainda! Que assim seja.” (coração selvagem)


# . por Joelma Terto .  0 Comentários