sexta-feira, janeiro 10, 2003

Mama mia

Ontem foi aniversário da minha mãe. E eu esqueci. Esqueci. Esqueci. Esqueci. Simples assim. Tipo que ontem foi um dia louco. Em nenhum momento do dia eu me liguei que era dia 9. Eu já estava na cama, me preparando pra dormir e lendo vários cadernos de cultura da ZH, que eu não consigo ler tudo no sábado e vou deixando, quando vejo tenho vários cadernos... Lendo sobre o livro de correspondências do Caio Fernando Abreu, que seria lançado dia 7, que é aniversário da minha tia, bateu um pânico de “putz, que dia é hoje?”. Já era 1.30h. Liguei. Menti pra ela, disse que passei o dia inteiro lembrando, mas tinha esquecido de ligar só. Ela acreditou. Porque eu acho que seria, no mínimo, decepcionante pra ela eu dizer que não tinha lembrado ou que não tinha me ligado, enfim.

A gente conversou MUITO. Como eu adoro a minha mãe. E como a nossa relação é meio louca. Hoje somos mesmo muito amigas, mas a gente só conseguiu chegar a esse ponto porque eu saí de casa. Louco isso, mas é verdade. Ela sempre foi a pessoa maravilhosa e fantástica que é, mas desde a minha adolescência que a gente não conseguia se entender direito. A gente vivia em desacordo, em tudo. Ela, capricorniana, sempre cri-cri, não me poupava de nada. Vivia me dizendo que eu era desleixada, desorganizada e tudo quanto é ada. Me sentia culpada por existir, me sentia culpada por tudo. Queria sempre sumir. Mesmo quando fui pra faculdade e passamos os quatro anos sem viver na mesma casa, era sempre foda. Era falar por telefone e eu sempre terminava batendo portas e chorando, de raiva. Sempre. Porque ela nunca dava o braço a torcer, mesmo estando errada.

Na hora que eu resolvi vir pra cá, ela foi a primeira que me defendeu, que me deu a maior força, embora todas as tias e o resto da família fosse contra. Ela e o meu pai, os dois foram os únicos que disseram “vai”.

Nesses 3 anos e meio longe, a nossa relação mudou completamente. Eu me culpo só por ligar menos do que deveria. Hoje somos cúmplices e parceiras de uma forma que eu nunca imaginei. E a nossa conversa na madrugada de hoje foi maravilhosa. Eu queria escrever um monte de coisas aqui sobre o que a gente conversou, mas não daria pra simplificar. Só posso dizer que amo muito ela. Até de VÊNUS e do PODER DE AFRODITE a gente falou!

Ela é a pessoa que mais me quer bem no mundo, que mais torce por mim e pela minha felicidade. Não importa o que eu faça, como faça, o que importa é eu estar bem, estar feliz, estar em paz. Ela não existe.

É inegável que nesse tempo ela mudou. E muito. Minha mãe é outra mulher, muito mais desencanada com a vida. Muito mais leve, menos exigente com os outros e com ela mesma.

Ela me lembrou, no meio da conversa, que eu tenho 26. Mas eu disse pra ela que eu tenho 20. Porque é assim que eu me sinto. Eu me sinto uma adolescente, quase sempre. E esse papo de eu ser uma adolescente rendeu os minutos mais divertidos da conversa. Eu perdi completamente a noção e viajei horrores. E ela embalou no papo. Ela me lembrou que quando eu era mais nova (quando ELA tinha 40), eu dizia que não queria chegar aos 40 porque eu seria uma velha e não teria mais razão pra viver. Ela perguntou se eu ainda achava isso. Disse que agora eu pretendo morrer aos 60 (muitos risos)...

Muitas coisas mais que eu ficaria escrevendo aqui. Porque são mais de 4 da manhã e tenho uma insônia filha da puta. E é estranho isso que alguém leia isso. Porque esse post não interessa a ninguém e eu continuo escrevendo. E espero que todos tenham se ligado nisso desde o início e tenham desistido, caso tencionassem faze-lo.

Tantas coisas mais tenho pra conversar com ela. Curiosidades. Saber ainda mais sobre ela, sobre a juventude dela, sobre meu nascimento, minha infância. Lembranças. Hoje, pela primeira vez na vida, eu queria estar bem perto dela, conviver mais com ela, conversar mais, contar coisas, ouvir. Mas não dá. Porque não quero voltar, nem ela aqui faria algum sentido. Pena que interurbano é tão caro. Por sorte ela também dorme tarde. Ligarei mais esse ano (e à cobrar). Eu prometo. Por ela. Por mim.

....

Depois da conversa, eu tava numa pilha indescritível. E fui ler Caio Fernando Abreu.

Puta que o pariu, como eu amo esse homem. Eu queria escrever como ele. Eu leio e releio o Morangos Mofados emprestado da Rafa (te devolvo, Rafinha, te devolvo). Sei de cor, salteado e de trás pra frente. O Além do Ponto, então, tnt na veia. Como eu adoro esse conto e todos os outros. Os Sobreviventes. O Dia que Júpiter Encontrou Saturno. Pela Passagem de Uma Grande Dor. Luz e Sombra. Natureza Viva. O Dia que Urano Entrou em Escorpião... Puta merda. Puta merda. Tantas coisas. Mas um post sobre o Caio F., ou sobre o Morangos Mofados, fica pra outra hora, outro dia, ou noite insone.


# . por Joelma Terto .  0 Comentários