segunda-feira, janeiro 13, 2003

Fuga número dois

Madrugada. Faz frio e ele caminha pela rua, àquela hora, deserta. Um bêbado no caminho. É abordado por dois punks que lhe pedem cigarros, mas o cigarro acabou, assim como o dinheiro e qualquer vontade. Dá de ombros. Sem cigarro, continua. Passo firme, cabeça erguida e pé na lama. Uma poça no meio do caminho, da chuva que caiu até poucas horas atrás.

- Droga – é só o que consegue pronunciar. Sem raiva. Seco. Baixinho. Tão humilde que parecia um elogio polido.

Sozinho, andando em linha reta, na noite fria de céu estrelado. Até chegar em frente ao prédio.

Abre o portão. Sobe as escadas. Elevador não, tão pertinho. Ele segue. Firme. Mas, vendo assim, de longe, parece tenso.

Apartamento 201. Tira o molho de chaves do bolso. São tantas, de tantas formas, pesos e tamanhos. O barulho quebra o silêncio do corredor branco e frio. Mas ninguém parece ouvir. Não são pessoas. São fantasmas, espectros. São cadáveres. Putrefatos. Todos.

Cessa tudo. Abre a porta, sem fazer mais qualquer ruído. Aquela sala. Aqueles móveis. Aquelas paredes. Tanta vida que se esvaía. Daqui a pouco tudo seria tão distante. Entra no quarto onde o outro dorme.

- Estou indo embora – fala, enquanto arruma a mochila, iluminado apenas pela luz da lua, que entra pela janela. Estaria cheia? Uma calça, três camisas, a escova de dentes, alguns poucos livros. – Estou indo embora – pega o blusão. – Estou indo embora, porra! – Grita. Mas o outro não acorda, não se mexe, não se move. Não ouve.

Faz o caminho inverso, lentamente. Mas já não olha a parede, os móveis. Já não pensa que possa haver qualquer vida. Vida não há. O mesmo corredor frio. As velhas portas. Todas fechadas. O disjuntor desliga a luz do corredor ao mesmo tempo em que bate o portão da rua.

Mesmo caminho de volta. A mesma madrugada fria, o mesmo bêbado na calçada. Os bolsos vazios e o céu estrelado. Nuvem também não há. Já não deve chover mais. E ele indo, passo firme, cabeça erguida e, agora, uma mochila nas costas. Dessa vez tem cuidado com a poça de lama.

Pára em frente ao mesmo bar, o de sempre. Entra. Nenhum conhecido, só um velho boêmio na mesa do fundo. Sai, sem se fazer notar ou tomar um trago. Sem se aquecer do frio. Daquele vento frio que parecia agora varrer tudo. Querer arrancar as árvores, mas sem força para tal.

- Estou indo embora – balbucia pra si mesmo. Sem olhar pra trás.

E continua andando. Até desaparecer na madrugada.

.......

Dia 13. Último dia de inscrição na Oficina de Criação Literária do Assis Brasil. Tinha meus 3 contos prontos e a idéia de me inscrever, desde uns meses atrás. Mas não me inscrevi. Desisti. Simples assim. Ah, sei lá. Tantas coisas. Faltou disposição na reta final. 2003. Não sei o que será, o que virá, no que vai dar. Faltou disposição e vontade mesmo de enfrentar um ano inteiro de maratona. Um grande QUE SE FODA. Não sei se quero. Escrever, brincar de ser escritora. Que se foda.

(me sinto meio como o personagem da história acima. história sem sentido ou propósito começo meio ou fim. que não diz nada com coisa nenhuma. indo embora pra lugar algum na madrugada. fugindo de alguma coisa que nem mesmo eu, que o criei, sabe. espero que ele saiba. meus papéis não valem muito, não valem nada. meio blasè vezenquando.)



# . por Joelma Terto .  0 Comentários