terça-feira, dezembro 03, 2002

Eros e Psiquê

Daí que no último dia, consegui ir no Margs ver a mostra Paris 1900: 175 obras, entre pinturas, esculturas, desenhos, gravuras, jóias, trajes e objetos, do acervo do Petit Palais. Dia quente, calor infernal, fila grande pra entrar, muita gente se estapeando pra poder ver as obras. Confesso que saí de lá meio brochada. Todo aquele auê e? Na verdade qualquer exposição, ainda mais daquele porte, sempre vai ter coisas geniais e coisas médias (pra não dizer que tem também muita coisa medíocre, mas nem foi o caso).

Vi muitas obras interessantes e muita coisa que me passou batido. Algumas pinturas eram maravilhosas, em especial “Sem Asilo” do Pelez (de quem não sei porra nenhuma). Traços perfeitos. Sensibilidade saindo pelos poros. Realidade cortante.

Aquela seqüência de desenhos/protótipos de jóias também era algo muito peculiar. Técnica apurada. Beleza singela.

Mas o que mais me marcou, sem dúvida, foi o “Amor e Psiquê”, do Rodin. Aquela coisa de mito. De uma obra que habita teu inconsciente e um belo dia tu tem a oportunidade de ter pertinho do olhar. É realmente linda. As formas, os relevos. Todo aquele entrelaçamento de pernas, cabelos. Tu não sabe quando começa um e quando termina o outro. Um só. Putz, muito lindo.

amor_e_psique

Daí que eu fiquei pensando no mito de Eros e Psiquê...

Eu juro que não sei se um dia vou entender essa história. Não sei nem se quero. Mas, porra, acho uma judiaria o que fizeram com o pobre da Psiquê. Tudo bem que no final ela ficou na buena e eles foram felizes para sempre no Olimpo e talecoisa. Mas, porra, precisava passar por tudo aquilo?

Tá certo que ela quase cai em desgraça por causa da vaidade, mas a condenação primeira foi por curiosidade, dúvida (falta de confiança?). E se não houve prudência no segundo caso, no primeiro, eu acho que ela agiu mais por ímpeto não-subserviente que por preconceito (“o que os olhos não vêem o coração não sente” e todo esse blá-blá-blá clichezóide). Se no lugar dele fosse a medonha serpente alada? Ela mataria? Tem versões do mito que sequer mencionam o tal punhal. Sei lá, sei lá. Eros e Afrodite também não eram movidos pela vaidade? Crueldade, crueldade.

Prefiro não querer entender mesmo. Sei que ela que construiu sua desgraça e sofrimento, por ser humana, por ser mortal. Mas as regras pré-estabelecidas foram impostas pelos deuses...

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“De que me adianta a beleza? De que adianta ser considerada a mais bela das princesas? De que adianta o rosto que miro no espelho, se durmo sozinha...(...) De que adianta a beleza, se ela significa solidão, se o que eu mais quero é justamente o que mais necessito, o calor do companheirismo, a delicadeza do amante, o desejo sincero do homem, as confissões plangentes do amor..”.

- Os homens têm receio de pedi-la em casamento, por pensar que você é uma deusa! – diz, apreensivamente, o pai, solidário da tristeza da filha querida. - Eles até estão edificando um templo para a sua adoração!

- Que tolos são os homens!- suspira a bela jovem.


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Em linhas gerais, o mito se refere ao despertar da alma (Psique) através do amor, reconhecendo a alma como o fator interno que leva às profundezas aludidas por Heráclito. Através da atenção amorosa dada ao psiquismo, como a que ocorre no processo psicoterápico, a alma começa a desenvolver-se e a revelar-se. Para Hillman, é o "mito fundamental da criatividade psicológica". O mito narra o que acontece entre as pessoas e dentro das pessoas. Mostra também que o desenvolvimento de Psique não ocorre num mar de rosas. Sofrimento, tortura, depressão, tentativas de suicídio, desânimo são vivências fundamentais de todo o processo. Eros, o amor, é retratado como um grande torturador e não como um querubim bondoso. É um processo difícil e cheio de obstáculos.

(Carlos Bernardi, in Apresentando James Hillman - capítulo da dissertação de mestrado "Senso Íntimo: Poética e Psicologia, de Fernando Pessoa a James Hillman”)
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Sei lá. Pra que complicar tanto se, no fim das contas, o que floresce disso aí (e o que parece mesmo ter maior importância e fazer algum sentido) é a Volúpia?


# . por Joelma Terto .  0 Comentários