sábado, dezembro 14, 2002

Coisas Velhas e Fora de Contexto

Daí que um dia você resolve limpar as gavetas, ou vasculhar o HD, não importa. Aí você encontra coisas. Muitas coisas. Coisas adormecidas. Envelhecidas. Mortas? Talvez. Eu gosto disso aí. Não sei porque. Sei lá... É uma viagem de ego. Só isso. Escrita em 1999.

O Cardoso quer (ou queria) 1999 de volta. Dou minha pequena contribuição. Mas eu já disse por lá que se 1999 voltasse, o BG seria Os Alquimistas Estão Chegando. E isso seria anacrônico pracaralhos.


Alugando a parede

SÍNDROME DE VALENTINE
###as paredes lá de casa me odeiam. fuck. # ###

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Até ontem ainda pensava. Hoje não me preocupo em e já nem sei se. Até ontem ainda queria. Tanto e tudo, ao mesmo tempo. Agora o tudo é tão distante e longe do alcance das mãos. Pequenas as mãos nas pontas dosbraços. As duas. Na medida inversa dos anseios. Os pés também, tão pequenos. Até ontem querendo correr mais que andar. Passos largos para ver se chegam. O importante não é chegar - todo mundo chega. Bacana é chegar primeiro. Ou não. Até ontem pareciam se importar. Os outros. Nem eles, se é que já se. Algum dia, alguém, talvez. Há sempre uma possibilidade. Sempre pequenas possibilidades de.

Até ontem estavam aqui, todos. caras cínicas e narizes de palhaço. Quando não faziam chorar, pelo menos eram divertidos! Até eles não mais e não mais se perguntar pra onde foram, onde estão: as pessoas, os mórbidos pensamentos e a vontade de querer. Findaram-se. E a tarde também. fim

Até podia fazer de conta que não é nada. Não foi triste, não doeu nem fez chorar. Mas desceu rasgado e seco, como o conhaque de dois dias atrás. E eu odeio conhaque! E mesmo odiando ou achando ou fingindo que, mesmo lembrando de não lembrar o tempo todo, num só trago me cortou a garganta, deixando aquele conhecido amargo na boca. Não falar sobre.

Nem pensar ou falar. Só rir. alto. Gargalhadas afiadas como o conhaque de dois dias. Cortando o silêncio frio do úmido apartamento, invadindo o corredor estreito e longo. Se conseguisse lembrar...Am...amn...amnésia. Seletiva, acho. Acho que ainda consigo achar. Amanésia. “ame-me ou deixe-me”. Mame-me, Mamnésia, little darling.

Fica aí, nem entra! Se entrar, tem que ficar. Tem que se instalar, de mala e cuia, tem que trazer tudo, principalmente os defeitos, que devem ser tantos, que não cabem no bolso de trás. Tem que se deixar ficar, tem que receber e dar. Não dói nada, não é injeção nem cadeira de dentista. Não é simples, mas não custa na... Não entrou. Preferiu voltar...Volta! Não volta? Volta não, que é melhor assim, deixa quieto e me deixa aqui.

Ainda nada, só um fantasma me olhando. Música. bem alto. let’s dance, baby. Quando começar a pular pular pular, vai sair correndo de pavooooooor. bye, baby, continuar aqui pulando pulando pulando em cima das almofadas surradas adas... Melhor não: deve doer e elas podem gritar, embora velhas almofadas-surradas-mofadas não sejam vingativas nem gritem de dor. Quando começa a doer muito, mas muito mesmo, devem se encolher e chorar baixinho.

Mas se gritam, gritemos então. De dor, tanto uma quanto as outras. Uma sinfonia de gritos disfônicos. Da porta aberta do banheiro dá pra ver o espelho. E o espelho grande do banheiro cor-de-rosa é um terrível monstro que transfigura em monstro qualquer um que nele se olhe. Não sou eu, disforme, pulando em almofadas, gritando de dor e fingindo que elas também gritam.

Sou eu fingindo não conseguir pensar e ainda nem som de coisa nenhuma sai da radiola. Abrir cortina, afastar sofá e começar logo a pular (não em cima das almofadas!) e suaaaar, se desmanchaaaar...derreteeeer feito margarina em frigideira. feder, se esgototar e cair de cansaço. Aí é que nenhum pensamento vai se aprochegar mesmo. Melhor assim. Melhor não lembrar.

Porque aconteceu. Porque foi triste e fez doer.

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Joelma T.
PoA
1999

# . por Joelma Terto .  0 Comentários